Dois Brasis”: regiões dependentes do setor público pegam via lenta do PIB

BNP Paribas nota que regiões menos dependentes do setor público crescem a 2,5% ao ano ou mais, enquanto as demais tem taxa anual de 0,5%

A recuperação da economia brasileira avança em duas vias, cada uma com uma velocidade diferente, segundo o BNP Paribas em relatório disponibilizado com exclusividade para EXAME.

Pela “pista expressa”, vão as regiões menos dependentes do setor público, crescendo a uma taxa anual de 2,5% ou mais. Pela “pista local” vão as demais, praticamente estagnadas em uma taxa anual de 0,5%.

“Essa divergência é essencial para entender o desempenho moderado do PIB brasileiro nos últimos anos”, diz o banco no documento.

Os cálculos da instituição foram feitos com base em dados divulgados mensalmente pelo Banco Central com o PIB para os estados brasileiros. As taxas médias correspondem ao acumulado de 12 meses até outubro de 2019 sobre o período imediatamente anterior.

O BNP enxerga uma transição em curso no país, que passa de uma economia mais dependente do setor público para uma cujo crescimento é protagonizado pelo setor privado.

“A revisão da política de crédito do BNDES foi fundamental para esse processo. Era uma maneira indireta que o governo usava para incentivar algumas regiões, alguns setores. Ao eliminar ou pelo menos restringir essa ação, os empresários começam a ter que tomar decisões com base em incentivos reais da economia”, diz Gustavo Arruda, economista do BNP responsável pelo Brasil.

Um segundo movimento nesse sentido, segundo ele, é quase que uma consequência da restrição fiscal. O teto de gastos e a reforma da Previdência funcionariam como catalisadores, ajudando a encaminhar o problema das contas e ao mesmo tempo tornando o país mais atrativo ao investimento privado.

Recuperação assimétrica

O crescimento desigual entre as regiões mais e menos dependentes do setor público começou a aparecer com mais força após a recessão pela qual o Brasil passou de 2014 a 2016.

“A explicação lógica para esse descasamento é o início de uma crise gerada por um problema de falta de sustentabilidade fiscal. O país passou por décadas gastando mais do que o PIB. Com a mudança de política, algumas regiões ainda precisam encontrar seu potencial e como liderar daqui para frente. A lógica é a mesma para alguns setores da economia”, diz Arruda.

Dividindo os grupos de estados em dois, o “Brasil em crescimento” e o “Brasil lento” pela nomenclatura do BNP, nota-se que o primeiro está apenas 0,5 ponto percentual abaixo do pico de atividade, enquanto o segundo ainda se encontra 6,1 pontos percentuais abaixo do pico.

Na média do crescimento em 12 meses, o “Brasil em crescimento” alcançou em 2017 uma taxa de 2%, que acelerou para 2,5% na segunda metade de 2019. O “Brasil lento”, por outro lado, começou a crescer só em 2018 e, desde então, tem crescido a uma taxa média de 0,5% ao ano, e sem sinal de aceleração.

“Esperamos que o Brasil se beneficie do novo modelo após a transição, devido à melhoria da alocação de recursos e ao maior crescimento da produtividade. No entanto, a transição está atualmente afetando o crescimento nos estados brasileiros que ainda dependem dos gastos públicos”, diz o relatório.

Pelo mapa abaixo é possível ver que a região Nordeste, de cor mais clara, teve o pior crescimento médio do PIB no período. Os estados dessa região também são os mais dependentes do setor público.

O estado de São Paulo, responsável por quase um terço do PIB brasileiro, cresce a uma taxa anual de 2,7%, impulsionado pelo setor de serviços, destaca o banco.

Já a região Centro-Oeste (com 10,5% do PIB) também cresce a 2,7%, mas impulsionada pelo agronegócio, mesmo setor que sustenta um crescimento de 2,4% no Sul (que responde por 17% do PIB).

“O que esses estados tem em comum é que o gasto público representa uma parcela menor da economia local do que em outros lugares”, diz.

Isso é particularmente evidente no estado de São Paulo, onde menos de 10% do PIB local vem de serviços do setor público como saúde, educação, administração pública e transferências.

O Norte (5,7% do PIB) é uma exceção, segundo o BNP, com crescimento de 4,0% na média nos 12 meses até outubro, mesmo sendo uma região onde o setor público tem uma parcela forte do PIB. Para Arruda, um motivo importante para isso pode ser o recente aumento da atividade de mineração na região.

Para que o crescimento médio nacional atinja 3% em 2020, o BNP estima que o “Brasil em crescimento” precisaria acelerar do atual ritmo de crescimento de 2,5% para algo entre 4,0% e 4,5% nos próximos meses. O cenário é visto como improvável.

Na expectativa do mercado, expressa pelo boletim Focus, do Banco Central, a economia brasileira deve crescer 2,30% em 2020, uma aceleração sobre o 1,17% previsto para 2019 (o dado final só será divulgado pelo IBGE em março)

As expectativas do BNP são um pouco mais pessimistas do que a média para 2020, com previsão de 2% de crescimento, mas otimistas sobre o futuro imediatamente posterior.

“Após mais um ano de transição, com mais concessões e privatizações, presumimos que a economia possa estar em uma posição melhor e o crescimento poderá acelerar para 3% em 2021”. A expectativa para o PIB de 2021, segundo o Focus, é de 2,5%.

“Não esperamos que o cenário fiscal mude tão cedo. O país ainda está travando uma batalha de consolidação fiscal nos níveis federal e estadual, limitando o espaço para uma expansão dos gastos públicos. Além disso, altos funcionários do governo reiteraram várias vezes que o Brasil continuará a transição para um modelo de crescimento impulsionado pelo setor privado em 2020”, diz o relatório.